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Contra a religião política

“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo.”
Abraham Lincoln

A disputa presidencial de 2014 ficará marcada para sempre por ser a eleição mais suja da história do Brasil. Após 12 anos de gestão do Partido dos Trabalhadores o resultado não poderia ser pior. O uso do Estado como um aparelho do partido deu a autonomia que os criminosos precisavam para pilhar a coisa pública enquanto solapavam os fundamentos macroeconômicos que garantiam a estabilidade da moeda.

A volta da inflação, as demissões em massa, a desconfiança do mercado externo, os juros em alta, o rebaixamento da nota de investimento por agências de risco, o aumento das contas de gasolina e energia elétrica e a mudança nas leis trabalhistas forçam o brasileiro a conviver com o Brasil real, um país que está longe, mas muito longe daquele Brasil da propaganda do PT.

Diante dos fatos não é surpresa que a presidente Dilma Rousseff seja vaiada em toda aparição pública. O índice de aprovação da PTista caiu para apenas 7%, segundo pesquisas do próprio governo, confirmando aquilo que já está na boca do povo há muito tempo.

O sentimento de descontentamento é generalizado, mas nem todo o banditismo declarado do PT é o suficiente para demover alguns profissionais da mídia, como Juca Kfouri, de dizer que quem desaprova Dilma é porque tem ódio aos pobres:

“O panelaço nas varandas gourmet de ontem [em protesto ao pronunciamento presidencial especial no dia internacional das mulheres] não foi contra a corrupção. Foi contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade.”

Percebe-se, desde logo, que estamos diante do maior mistério da humanidade: se o governo do PT foi responsável por transformar 93% da população em elite econômica como é que esta mesma população poderia se insurgir contra tamanho milagre de enriquecimento?

Elite

A declaração de Kfouri chama menos a atenção pela sua argumentação – absurda em si mesma – do que pelo exemplo da força da convicção cega em uma causa que não foi examinada pela inteligência de quem advoga a favor de uma ideologia. E é bom que se diga, ideias que são aceitas sem maiores contestações estão mais para a o campo da religião do que para o campo das ciências políticas.

Não é a toa que militantes de esquerda comportam-se como membros de uma seita. Discursam como quem prega sua crença e aderem à religião política, por assim dizer.

Que o próprio PT tenha nascido das comunidades eclesiais de base da igreja católica é um fato que não pode ser ignorado. E que a principal referência nacional da teologia da libertação tenha ligações estreitas com o partido tampouco.

A ladainha de Kfouri encontra eco em Leonardo Boff, que diz:

“Ocorre que irrompeu uma mudança profunda graças às políticas sociais do PT: os que não eram começaram a ser. Puderam comprar suas casas, seu carrinho, entraram nos shoppings, viajaram de avião às multidões, tiveram acesso a bens antes exclusivos das elites econômicas. (…) Veem, temerosas, a ascensão das classes populares e de seu poder.”

E o discurso único reverbera produzindo ainda mais características de uniformidade.

Enquanto Kfouri defende que:

“Um fenômeno novo na realidade brasileira é o ódio político, o espírito golpista dos ricos contra os pobres. O pacto nacional popular articulado pelo PT desmoronou no governo Dilma e a burguesia voltou a se unificar. Surgiu um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente. Não é preocupação ou medo. É ódio.”

Boff justifica que:

“Já dissemos anteriormente e o repetimos: o ódio disseminado na sociedade e nas mídias sociais, não é tanto ao PT, mas àquilo que o PT propiciou para as grandes maiorias marginalizadas e empobrecidas de nosso país: sua inclusão social e a recuperação de sua dignidade. Não são poucos os beneficiados dos projetos sociais que testemunharam: ‘sinto-me orgulhoso não porque posso comer melhor e viajar de avião, coisa que jamais poderia antes, mas porque agora recuperei minha dignidade’. Esse é o mais alto valor político e moral que um governo pode apresentar: não apenas garantir a vida do povo, mas faze-lo sentir-se digno, alguém participante da sociedade.”

Ainda que haja diferença de estilos literários entre os dois autores não há como negar o senso de unidade que aplaina o conteúdo do discurso de ambos. E isso fica tanto mais patente quando voltamos a atenção aos títulos em que cada um dá ao seu respectivo artigo:

O que se esconde por trás do ódio ao PT(II)?, publicado por Leonardo Boff em 07/03/2015.

O panelaço da barriga cheia e do ódio, publicado Juca Kfouri em 09/03/2015.

Se a tese de adesão à religião política ainda parece inverossímil o próprio Boff trata de nos esclarecer essa dúvida de uma vez por todas:

“Esta constelação anti-popular e até anti-Brasil suscita, nutre e difunde ódio ao PT como expressão do ódio contra aqueles que Jesus chamou de “meus irmãos e irmãs menores”, os humilhados e ofendidos de nosso pais.Como teólogo me pergunto angustiado: na sua grande maioria, essas elites são de cristãos e de católicos. Como combinam esta prática perversa com a mensagem de Jesus? O que ensinaram as muitas Universidades Católicas e as centenas de escolas cristãs para permitirem surgir esse movimento blasfemo, pois, atinge o próprio Deus que é amor e compaixão e que tomou partido pelos que gritam por vida e por justiça?”

Ora, se rejeitar o PTismo é, nas palavras de Boff, um movimento blasfemo então o próprio Deus foi retirado do centro da doutrina católica para, em seu lugar, ser ocupado pelo… PT!

Assim, torna-se auto evidente que nenhum militante esquerdista, absolutamente NENHUM, irá fazer um exame de consciência e buscar compreender as raízes profundas dos próprios erros porque, antes de mais nada, não o fazem sob uma perspectiva racional, mas, esta sim, a partir de uma condição ontológica da mentalidade revolucionária.

A crença na religião política estipula que o militante deva obediência à divindade partidária e não reflita sobre seus preceitos. Daí ao fundamentalismo doutrinário é um caminho muito curto a ser percorrido e a História tem nos mostrado as consequências terríveis quando o mundo civilizado entra em rota de colisão com a visão estreita de extremistas fanáticos.

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