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Sensibilidade seletiva

Passada as eleições é hora dos partidos contabilizarem seu capital político. Aqueles que não foram eleitos preparam estratégias para tentar ganhar força e projeção na próxima corrida eleitoral. Aqueles que sagraram-se vitoriosos reforçam alianças na base governista para evitar o engessamento imposto pela oposição.

Isso tudo faz parte do jogo democrático e não chega a ser uma novidade para ninguém. No entanto, algumas peças desse xadrez político utilizam métodos nada ortodoxos, para não dizer antiéticos até. Aquilo que já seria reprovável vindo de um homem público fica ainda mais imoral quando o protagonista é um político pago com dinheiro público.

Este é o caso do vereador Thiago Ferrari (PTB) que ontem publicou na sessão de editorial do jornal Correio Popular o artigo “O gigante acordou” de sua autoria. O texto é de uma desonestidade intelectual atroz falseando a realidade do início ao fim com o único objetivo de capitalizar apoio político. Aproveito a ocasião para reproduzir o referido artigo na íntegra e na sequencia comento-o:

“O país que emergiu das urnas após as eleições presidenciais deste ano despertou um gigante adormecido no inconsciente de muitos brasileiros, por gerações e gerações. Talvez para reforçar a imagem de cordialidade e simpatia com que falsamente nos apresentamos aos estrangeiros (europeus, claro) — o que surgiu das urnas não foi o gigante patriota e indignado de junho/julho do ano passado. O que apareceu agora foi um gigante sim, mas o gigantesco monstro do preconceito. 

Perigosamente aprisionado nos corações e mentes de milhões de patrícios nossos desde os primórdios da nossa história de colônia, o monstro sempre foi tratado como se fosse uma inocente zombaria ou mesmo resultado de um espirituoso sarcasmo que historicamente caracterizou o povo brasileiro. Mas, assim que o TSE anunciou o resultado final das eleições, o monstro saltou de porões putrefatos onde dormitava, e se apresentou em sua plenitude, de forma raivosa, furiosa, virulenta. 

Numa demonstração de incrível agilidade — como se tivessem sido elaborados com fria e calculada antecedência — surgiram muros em mapas do Brasil separando o Norte do Sul, assim que o resultado foi anunciado. As chamadas redes sociais foram invadidas por imagens deploráveis de intolerância; pessoas supostamente educadas se viram de um momento para outro vociferando como animais contra nordestinos e pobres.

Sustentavam, com ofensiva e injustificada prepotência, e com base em convicções meramente pessoais, que os que votaram no candidato adversário eram um exército de alienados, dementes, insensatos. Uma turba de tolos; uma corja de inconsequentes. Eu mesmo recebi em meu telefone depoimentos em áudio de pessoas (anônimas, claro) para quem pobre nada mais é que vagabundo, e nortistas e nordestinos seriam cidadãos de segunda classe (e olhe lá!). E foram dezenas dessas mensagens, disseminadas com enorme rapidez e compartilhadas com sadismo revoltante, ultrajante. 

Demonstrações de repugnância e aversão inexplicáveis. Rancores profundos, ao que parece ruminados há gerações, foram expurgados. Atitudes tão pouco cristãs e devastadoramente incivilizadas escancaram, talvez, o traço mais funesto, tétrico e sombrio do brasileiro. Descobrimos, atônitos, que o Brasil não é o paraíso da amabilidade. Não é a personificação da afeição e jamais poderá ser usado como metáfora da união entre os povos, como se tentou vender durante a Copa do Mundo. 

O Brasil que emergiu das urnas é preconceituoso, sim. Existe um grande número de pessoas que deseja, sim, a separação entre Norte e Sul. A xenofobia existe, sim. O racismo existe, sim. O nó a partir de agora é saber o que fazer com essa constatação. É claro que muita coisa precisa ser feita, mas a primeira delas é aplacar o ódio. Adotar campanhas de esclarecimento e disseminar ações afirmativas. 

Mostrar que é possível não apenas domar como também derrotar o monstro. Mas, sobretudo, é preciso adotar medidas urgentes para evitar que esse tipo de comportamento contamine as crianças. Nelas está depositada toda a esperança de um mundo livre de preconceitos.”

O nível de canalhice aqui é estratosférico! Toda a fraude intelectual baseia-se em três princípios básicos os quais o vereador Thiago Ferrari conhece muito bem, mas convenientemente finge ignorá-los. Ao mapear os expedientes fraudulentos observamos:

  • Primeiro, tomar a parte pelo todo – Assumir que aqueles que foram derrotados nas urnas são uma massa uniforme com um sistema de crenças comum a todos só faz sentido quando o objetivo é criminalizar automaticamente a totalidade das pessoas que não votaram no PT, ainda que alguns poucos indivíduos utilizassem discursos separatistas e fomentassem o ódio aos nordestinos. A responsabilidade por crimes de ódio só pode ser atribuída individualmente e nem de longe a maioria endossa um comportamento separatista desses.
  • Segundo, posicionar o mal perdedor como inimigo do povo – A vantagem de abordar o tema sem que alguém o tenha feito antes é que o interlocutor tem a oportunidade de marcar sua posição ao lado do povo. É evidente que toda a indignação com o ocorrido é fingida para gerar o fundo emotivo que o aproxima do leitor. Assim, se ele mesmo se compadece daqueles que receberam a ofensa cabe aos demais eleitores o reverso da medalha. Regra geral, imputar ao outro lado o rótulo de inimigo do povo é o mote da argumentação dos partidos de esquerda.
  • Terceiro, amplificação indevida – O único movimento de oposição organizado imediatamente após a divulgação do resultado da eleição foi em prol da liberdade de imprensa e exigindo a investigação de escândalos de corrupção. Ainda assim nosso nobre vereador atribui às imagens que viralizaram nas redes sociais uma importância maior do que elas realmente têm. As ofensas virtuais sequer conseguem gerar em torno de si um movimento político, mas nada disso foi levado em conta na hora de anunciar ações afirmativas.

 É evidente que tudo isso não passa de desonestidade intelectual maquiada de bom mocismo. No fundo o que o vereador Thiago Ferrari quer (e deixou muito claro em seu artigo) é controlar comportamentos que ele considera inadequado.

Se de fato estivesse interessado em coibir abusos ouviríamos algumas palavras contra o comportamento criminoso do partido que a todo o momento tenta dividir o país com uma retórica de ódio. A sensibilidade seletiva do nobre vereador acentua-se quando confrontamos o evento por ele narrado a outros casos que sequer foram citados. Para que se dê a devida dimensão dos fatos pondero:

Que disse o vereador Thiago Ferrari a respeito da declaração do sociólogo Emir Sader de que a crítica aos PTistas é racismo de paulistas contra nordestinos?

Nada!

Que disse o vereador Thiago Ferrari a respeito da declaração do jornalista Juca Kfouri de que os paulistas que xingaram Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo eram a elite branca intolerante?

Nada!

Que disse o vereador Thiago Ferrari a respeito da declaração da filósofa Marilena Chauí que sugeriu um estudo para entender a mentalidade paulista que não vota no PT?

Nada!

Desde logo fica claro a assimetria de tratamento entre as duas correntes de ódio, por assim dizer. Uma que só encontra eco nas redes sociais e que está fadada ao ostracismo e a outra que não só é aprovada pelo partido da presidência da república como também é encorajado como ato de fidelidade aos ideais revolucionários. Convém lembrar que o vice-presidente nacional do PT e coordenador das redes sociais do partido, Alberto Cantalice, colocou na lista negra do partido aqueles que ele considera os inimigos do povo. Em outro episódio digno de organização criminosa o coordenador da campanha do PT ao governo do estado de São Paulo, Paulo Frateschi, disse ser legítimo que militantes jogassem lixo na sede da revista Veja porque, segundo ele, a revista é um lixo.

Estamos vivendo em uma época em que a patocracia e o comportamento histérico modificam a nossa percepção do discernimento moral e o principal sintoma disso é a perda completa do senso das proporções. Para o bem dos eleitores/moradores da cidade de Campinas é imperativo que se vigie todo e qualquer discurso de controle de condutas e comportamentos para o qual sinaliza o vereador Thiago Ferrari. Para todos os que prezam pela vigilância democrática o sinal de alerta está aceso!

O que esperar das próximas eleições

Começa hoje a propaganda eleitoral gratuita e nos próximos três meses veremos atualizações regulares das pesquisas de intenções de votos. Os candidatos farão crer que há alguma transparência no processo democrático e que tudo transcorrerá na mais absoluta lisura.

Pois bem, tal aura de imparcialidade não passa de uma cortina de fumaça para ludibriar o eleitor desavisado que, jurando estar em pleno exercício de sua cidadania, irá digitar o número de seu candidato na urna eletrônica e confirmar o seu voto sem nunca ter a certeza que o voto foi mesmo computado corretamente.

Desde que a urna eletrônica foi adotada não há qualquer mecanismo de conferência e/ou auditoria após o encerramento das eleições justamente porque o sistema não permite a recontagem de votos em caso de dúvida.

A fragilidade do sistema eleitoral é patente e inúmeras denúncias já ganharam destaque em noticiários (ver vídeo abaixo), mas nada disso parece levar ao debate com o rigor que o tema requer.

Pioneiro em estudos acerca da segurança do voto na urna eletrônica brasileira, o programador de computadores especializado em segurança de dados, Amílcar Brunazo Filho, lembra que o Brasil é o único país no mundo a informatizar todo o sistema eleitoral.

Apesar de toda a propaganda de vanguarda veiculada pelo Tribunal Superior Eleitoral de que o país é um exemplo de eficiência e agilidade na apuração do resultado das eleições Brunazo alerta-nos para alguns problemas que sugerem que, ao contrário do que o governo anuncia, estamos remando contra a maré do bom senso:

Se a tecnologia está disponível, se existem recursos financeiros, se existem entidades a favor, então por que, no resto do mundo, o voto eletrônico tem resistido à informatização completa? Só há uma resposta para este aparente paradoxo: A questão da segurança do voto eletrônico ainda não foi resolvida de forma satisfatória!

Mas isso não é tudo. Ainda segundo Brunazo o sistema todo fere o princípio democrático de distinção das instâncias de poder:

Durante as eleições de 1998, o voto eletrônico foi regulamentado, desenvolvido, implantado e controlado pelo próprio TSE que, a este respeito, assumiu as funções legislativas, executivas e judiciárias em evidente afronta ao princípio da tripartição dos poderes!

Fonte: http://jus.com.br/artigos/1539/a-seguranca-do-voto-na-urna-eletronica-brasileira

Diante do exposto fica evidente que o sistema eleitoral em funcionamento é extremamente conveniente à quem detém os meios para aparelhamento do Estado.

Se o cenário já não inspirava confiança a nota preocupante fica por conta da notícia de que o TSE não fará testes públicos das urnas eletrônicas antes das eleições de 2014. É imperativo lembrar que no ano passado alguns testes independentes foram conduzidos pela UnB e foram detectadas falhas grosseiras no sistema de segurança da urna eletrônica.

Mas esta notícia não deve ser interpretada isoladamente. Um outro evento, aparente desconexo, irá determinar o rumo das próximas eleições: o ministro Dias Toffoli foi empossado presidente do TSE no dia 13 de Maio (mas que data mais sugestiva!) e comandará as eleições gerais de 2014.

Para entender quem é Dias Toffoli dentro da estrutura do partido reproduzo a seguir trechos do livro Década Perdida – Dez anos de PT no poder do historiador Marco Antonio Villa:

Recém-nomeado por Lula, o ministro do STF Dias Toffoli enfrentava diversas polêmicas sobre seu passado. Fora, por exemplo, reprovado — duas vezes — em concurso para juiz em São Paulo, em 1994 e 1995. Seu currículo era pobre.
Fora lembrado para o Supremo apenas por ter sido advogado do PT em várias campanhas eleitorais. E tinha contra si duas condenações em primeira instância, no Amapá — uma das quais impunha que devolvesse R$ 700 mil ao erário. Mas não ficava “só” nisso.
No escândalo das interceptações telefônicas feitas pela PF em 2008, Toffoli, à época advogado-geral da União, ignorara a lei federal e ajudara na defesa do ex-ministro Silas Rondeau, afastado do cargo e denunciado à Justiça por corrupção e formação de quadrilha. Nas conversas gravadas, ficaria evidente que Toffoli indicara o advogado de defesa — o mesmo que a própria Advocacia Geral da União deveria enfrentar no processo movido contra Rondeau. (p 199)

Sete anos após a denúncia do ex-deputado Roberto Jefferson, o mensalão, finalmente, começaria a ser julgado. Aguardava-se, porém, que o ministro Dias Toffoli se declarasse impedido de participar da análise do processo. Fora advogado do PT e assessor de José Dirceu na Casa Civil durante quase três anos, além de ter defendido Lula em três campanhas presidenciais.
Em 2002, para piorar, teve contas pagas pelo ex-tesoureiro do partido e réu no processo, Delúbio Soares. Em 2006, repetiu, em representações encaminhadas ao TSE, que o esquema “jamais” fora comprovado.
Sua namorada, Roberta Rangel, foi advogada do também réu Professor Luizinho, ex-deputado do PT; e seu irmão, José Ticiano Dias Toffoli, também petista, era prefeito de Marília. Mesmo assim, não se declarou impedido. E tampouco o procurador-geral solicitou tal impedimento — no que fez muito mal para o julgamento daquela ação penal. (p 256-257)